sábado, 9 de janeiro de 2016

SAÚDE MENTAL por Rubem Alves


Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as ideias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa…
Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho seja como Van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL. Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que tivesse stress ou depressão, com exceção do Suplicy. Andam sempre fortes e certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por entidades espirituais – símbolos, que formam os programas e são gravados nos disquetes.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais, sendo que o programa mais importante é linguagem.
Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software era tão bonita que o seu hardware não suportou.
A beleza pode fazer mal à saúde mental. Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom trabalho.
Dadas essas reflexões científicas sobre a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no início, evitando assim o triste fim que tiveram.
Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa saúde mental têm sempre as mesmas ideias. Essa cotidiana ingestão do banal é condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo esta receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá como eles eram.
(Provavelmente escrito em 1994)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

"Para sempre sempre acaba!"

Disse-me tantas palavras... Eram lindas e bem "decoradas". Fiquei encantada. O que mais me iludia era aquela que ouvia todos os dias: _ Eu te amo, para sempre. Mas ele não me escondia, pelos atos covardes que eu via... "O pra sempre, sempre acaba." 
E acabou o dia em que eu ouvia e acreditava. Agora fico no hoje, sem viver o para sempre, já que ele sempre acaba.





 # Sue Paulino#

Para os meus filhos, com amor!

Meus filhos não sabem, mas eles sempre foram usados por Deus em minha vida. - Fiquei de pé em momentos em que as forças não existiam, pois pensei o quanto eles precisavam de mim para pegar em suas mãos. 
- Sorri ,quando queria apenas chorar (todo momento chorar), porque pensei o quanto meu sorriso era importante para mantê-los equilibrados. 
- Ajoelhei-me, mesmo querendo estar apenas deitada, vendo um filme, comendo pipoca... porque pensei o quanto a minha oração era um muro de fogo para guardá-los das ciladas do maligno.
- Adormeci, mesmo com as preocupações tentando tirar meus sonhos, porque pensei o quanto precisava estar renovada no dia seguinte, para levá-los à escola, fazer a comida deles, pôr roupas para lavar, organizar a casa e deixá-los confortáveis.
Meus filhos não sabem, mas muitas vezes pensei em sair pelo mundo, deixar tudo para trás, porém não o fiz, porque entendi que 3/4 de mim nunca jamais alçariam voo e onde quer que eu estivesse, ainda seria incompleta.
Meus filhos talvez não saibam, mas vivo quatro vidas, a minha e as deles.Por isso quero saber tanto da vida deles, porque é também a minha.
E fico imaginando o dia em que vou me multiplicar nos netos, bisnetos... enfim continuarei encontrando motivos para viver e sorrir, e deitar, e levantar, e orar, e amar.
UMA HOMENAGEM A TODAS AS MAMÃES!
Amo vocês!


Sue Paulino

É só uma febre!

Aprendi esse termo nos anos 90, quando se falava sobre o modismo. Essa expressão queria dizer que aquilo em questão, ou seja, moda, sentimentos, etc, passaria. Mas existem febres que anunciam uma doença grave e que, se não for tratada, levará à morte. Alguns modismos, escondem, com certeza, uma doença grave de moralidade e repúdio aos valores adquiridos entre gerações. Muitas civilizações de hoje foram construídas sobre a ruína de outras. Culturas inteiras foram soterradas e o mais forte, no momento, subjugou o que parecia ser mais fraco ou errado.
Vejamos se o que parece moderno demais hoje nada mais é do que a subjugação de valores. Valores com os quais nossos antepassados viveram muito bem e que geraram uma sociedade na qual era possível respeitarem-se pais, idosos, lideranças...

Na minha época, não muito distante, trabalhar cedo não era sinal de escravidão infantil, mas uma forma de fazer crianças pobres tornarem-se responsáveis e entender que a vida era muito dura e que a gente precisava correr atrás dos nossos sonhos. 
Estudava, trabalhava, ajudava em casa e cresci consciente das minhas obrigações. 
Que está acontecendo com a sociedade? Tantos modismos, tantas leis, tantos desgovernos...
Para onde estamos indo? Será que ainda há condições de ir, pelos menos, para a UTI?


Sue Paulino

sábado, 8 de junho de 2013

PARÁBOLA DO PORCO ESPINHO


Durante uma era glacial, muito remota, quando o Globo terrestre esteve coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram indefesos, por não se adaptarem as condições do clima hostil.

Foi então que uma grande manada de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, a juntar-se mais e mais. Assim cada um podia sentir o calor do corpo do outro. E todos juntos, bem unidos, agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir os companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. E afastaram-se, feridos, magoados, sofridos.

Dispersaram-se por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito…….

Mas, essa não foi a melhor solução: afastados, separados, logo começaram a morrer congelados.Os que não morreram, voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precauções, de tal forma que, unidos, cada qual conservava uma certa distância do outro, mínima, mas suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos recíprocos. Assim, aprendendo a amar, resistiram a longa era glacial. Sobreviveram.

"Quanto mais nos ocupamos com a felicidade dos outros, maior passa a ser nosso senso de bem-estar. Cultivar um sentimento de proximidade e calor humano compassivo pelo outro, automaticamente coloca a nossa mente num estado de paz. Isto ajuda a remover quaisquer medos, preocupações ou inseguranças que possamos ter, e nos dá muita força para lutar com qualquer obstáculo que encontrarmos. Esta é a causa mais poderosa de sucesso na vida."

Arthur Schopenhauer

domingo, 2 de junho de 2013

A régua e o passarinho





Entre os instumentos de medição e precisão, ela se achava a mais importante. Dizia que vinha dela o modelo dos outros, portanto, ela tinha a palavra final.
Em qualquer ocasião, tinha sempre a opinião formada, fechada, laqueada. Nada de demovê-la de seus ideais, Modelo de muitos modelos.  Impossível fazê-la entender que as coisas estavam mudadas, que apesar de seu olhar preciso, existiam outros que davam certo também. Mas sua cantiga era a mesma. Sou modelo do modelo. Aos poucos, foi sendo abandonada porque não aceitava a medida de ninguém. Cada ser devia medir-se por ela, antes que dissesse qualquer opinião. Estragara tantos relacionamentos bons, estragara  oportunidades, estragara vidas, pois sua maneira de ser feria outros.
Um dia contemplou um passarinho que se locomovia entre galhos. Ele cantava aqui e acolá, beliscava aqui e acolá. Parecia tão livre. Sentiu inveja dele, mas não admitiu. Afinal, inveja, segundo sua medição, era algo hostil ao ser humano, porque representava baixo caráter.
Aproximou-se do pássaro e perguntou-lhe o que o fazia sentir-se tão livre. A resposta veio pronta, sem muitas delongas.
_ A liberdade que você vê também faz parte de seu olhar. Nem sempre sou livre, embora pareça livre.
_ Como não é? Vejo-o cantarolando, vejo-o voando despreocupado entre as árvores, vejo-o tão solto, tão leve...


_ Você tem razão. Você vê.
E falando isso, alçou voo em direção a gaiola que servira de prisão para ele a vida inteira. Pois tivera medo do que viu. Embora  tenha aproveitado a tão sonhada liberdade, porque falaria para a senhora Régua a vontade de voltar  para onde estava? Ela teria uma opinião formada e diria o que ele deveria fazer. Conselhos eram bons, mas aqueles que tentam impor seu olhar sobre os outros é que não são bons conselheiros.
Sue Paulino


sábado, 18 de maio de 2013

O que eu não vejo...

Não vejo as pessoas por inteiro, porque é normal que apresentemos fragmentos de nosso eu todos os dias. Se nos vissem por completo, talvez tivéssemos muitas rejeições e não seria fácil conviver com desprezo.
Não vejo alicerces sólidos na vida da maioria das pessoas.
Eu não vejo o passado, embora ele esteja presente nas sequelas com as quais convivo.
Eu não vejo disposição na maioria das pessoas. Há indisposição para fazer o bem, para compartilhar  espaços e conceder perdão.
Eu não consigo ver um futuro bom para a sociedade. Tudo parece enrolado e cético.

Sue Paulino