sábado, 29 de maio de 2010

Reflexão

Fala-se de mãos e pés calejados, mas pouco se fala de corações calejados.
Portanto.. quanta gente há por aí vivendo como se não fosse possível ter sentimentos porque um dia foram magoadas.
As pessoas mais duronas, que parecem indiferentes ao amor, carinho e ternura, são pessoas endurecidas pela vida. São vítimas de uma dor que não souberam gerir.
Uma empresa mal administrada vai à falência; um coração mal dirigido vai à ruína.
Somos nós os gerentes da nossa vida. A nós cabe as decisões importantes que conduzirão nosso caminho. Você já experimentou andar com um sapato apertado?
No início a gente aguenta, faz até cara bonita e se diz que depois vai amaciar.
Mas isso nem sempre acontece e depois de algum tempo percebemos que, mesmo se as pedras no caminho podem fazer mal, melhor mesmo é deixar esse sapato de lado, ainda que seja aquele que a gente tanto desejou e até se sacrificou para adquirir.
Há pessoas que calejam nosso coração. Fazem parte da nossa vida e as amamos,
mas nos fazem mal... tanto e tanto que acabamos fechando aos poucos as portas do nosso coração a outras possibilidades.
Nos trancamos dentro dele e vivemos na escuridão da nossa própria sombra. Não permita que alguém magoe seu coração a ponto de te deixar insensível. Não deixe de acreditar nas estrelas porque um dia as nuvens escuras encobriram seu céu.
Se seu coração está calejado, cuide dele com mais carinho ainda. Que seja ele a transformar a atitude dos outros em relação a você e não o contrário!
Se alguém que você ama só quer brincar com seu coração, talvez essa pessoa não mereça o amor que você sente.
E por mais difícil que seja, guarde seu coração das asperezas, não deixe que as decepções o endureça.
Olhe em outras direções, dê uma chance aos que te querem bem e ao seu coração de ser cuidado com o carinho que ele merece.
autor; Letícia Thompson

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dizer “sim”, dizer “não”

Lya Luft



A história mais difícil de escrever é a nossa própria, complexa, obscura, inocente ou perversa – bem mais do que são as narrativas ficcionais.

Brinquei muito tempo com a idéia de dizer “sim” ou “não” a nós mesmos, aos outros, à vida, aos deuses, como parte essencial dessa escrita de nosso destino – com os naturais intervalos de fatalidade que não se podem evitar, mas têm de ser enfrentadas.

Acredito em pegar o touro pelos chifres, mas vezes demais fiquei simplesmente deitada e ele me pisoteou com gosto. Afinal a gente é apenas humano.

Nessa difícil história nossa, dizer “sim” ao negativo, ao sombrio, em lugar de dizer “sim” ao bom, ao positivo, é o desafio maior. Pois a questão é saber a hora de pronunciar uma ou outra palavra, de assumir uma ou outra postura.

O risco de errar pode significar inferno ou paraíso.

Também descobri (ou inventei?) isso de existir um ponto cego da perspectiva humana, em que não se enxerga o outro mas apenas um lado dele: seu olho vazado, sua boca cerrada, seu coração amargo. Sua alma árida, ah...O ponto cego das nossas escolhas é aquele onde a gente pode sempre dizer “sim” ou “não”, e nossa ambivalência não nos permite enxergar direito o que seria melhor na hora: depressa, agora.

O ponto mais cego é onde a gente não sabe quem disse “não” primeiro. E todos, os dois, deviam naquele momento ter dito “sim”.

Viver é cada dia se repensar: feliz, infeliz, vitorioso, derrotado, audacioso ou com tanta pena de si mesmo. Não é preciso inventar algo novo. Inventar o real, o que já existe, é conquistá-lo: é o dom dos que não acreditam só no comprovado, nem se conformam com o roteiro.

Nosso drama é que às vezes a gente joga fora o certo e recolhe o errado. Da acomodação brotam fantasmas que tomam a si as decisões: quando ficamos cegos não percebemos isso, e deixamos que a oportunidade escape porque tivemos medo de dizer o difícil “sim”.

O “não” é também um ponto cego por onde a gente escorre para o escuro da resignação.

O ponto mais cego de todos é onde a gente nunca mais poderá dizer “sim” para si mesmo. E aí tudo se apaga. Mas com o “sim” as luzes se acendem e tudo faz sentido.

Dizer “sim” a si mesmo pode ser mais difícil do que dizer “não” a uma pessoa amada: é sair da acomodação, pegar qualquer espada – que pode ser uma palavra, um gesto, ou uma transformação radical, que custe lágrimas e talvez sangue – e sair à luta.

Dizer “sim” para o que o destino nos oferece significa acreditar que a gente merece algo parecido com o crescer, iluminar-se, expandir-se, renovar-se, encontrar-se, e ser feliz.

Isto é: vencer a culpa, sair da sombra e expor-se a todos os riscos implicados, para finalmente assumir a vida.

Fazer suas escolhas, assinar embaixo, pagar os preços... e não se lamentar. Porque programamos o próprio destino a cada vez que, num tímido murmúrio ou num grande grito, a gente diz para si mesmo: “Sim!”



Do Livro Pensar é Transgredir - pág. 183

Canção das Mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta e entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro entenda que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada, o outro não pense que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta que me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá esteja sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.
Que se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”
Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar porta necessária que se abre para mim, por mais tola que pareça.
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que quando eu levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “mas que chateação essa mania, volta pra cama!”
Que se eu peço mais um drinque no restaurante o outro não diga logo: “Pôxa, mais um?”
Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.


Do livro Pensar é Transgredir - 2004
Lya Luft

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente


Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 21 de maio de 2010

"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante."

" Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".

A importância das coisas e das pessoas são medidas pelo quanto nos doamos. Tudo que nos é importante consome parte dos nossos pensamentos e atenção, mesmo que não apresentemos em horas, números. De que adianta viver a vida sem ter um braço certo para deitar? Sem ter o afago da pessoa amada, sem ter com quem dividir e sonhar e somar e sorrir?
"Em um mundo que se fez deserto, temos sede de encontrar companheiros."
O que mais amo na mensagem de "O pequeno Príncipe" é que ele, após a sua jornada, sente falta da rosa que deixou lá no planeta B12. Ele conheceu um jardim repleto de flores e percebeu que todas aquelas rosas eram iguais, mas a dele era única," Sois belas, mas vazias. Não se pode morrer por vós. Minha rosa, sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é, porém,  mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus a redoma. Foi a ela que abriguei com o para-vento. Foi dela que eu matei as larvas. Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa." Mesmo sendo orgulhosa, brigando com ele, reconhecia que ela era única. Sabe por quê? Porque " Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos."
Não queria ser amada pelo que me veem, mas pelo que se sente de mim. Queria exalar o mais profundo perfume que sai do íntimo do meu ser. Se assim o for, saberei que posso ser melhor cada dia e, consequentemente, mais amada. Porque a beleza passa, o corpo envelhece, os cabelos ficam brancos, a silhueta encolhe, mas o amor só aumenta.
Quero envelhecer junto com alguém, mas sinto que isso está se tornando um sonho distante. " Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós."
Por isso penso: se passarem muitos, levarão muito de mim e deixarão muito deles. Assim meu caráter, minha feição, minha história será confundida com outras e eu quero ser "única".

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sonhos e apelos!

Qual triste verdade me foi dita. Alimentei sonhos irreais e descobri estarrecida que alimentava avestruzes dentro de mim. Resistente e perspicaz, adaptei-me a viver de migalhas.
Sem me dar conta de atos que maquinalmente repetia, cavava minha cova profunda e agredia a quem achava que me feria. A verdade era que sempre eu mesma me feria e assim, reflexivamente, atingia aos meus conceitos e decapitava meus ideais.
Acabei por criar uma imagem diferente daquela que queria ter sido vista e apreciada.
Passei a ser várias. Uma estranha após a outra, de forma que não mais me reconhecia. "Perdi-me dentro de mim/ porque eu era labirinto".
Desiludi-me, ainda hoje conservo a dúvida: persisti e insisti demais? Ou foram os métodos que usei que não foram ideais?
Sei que a resposta vai vir um dia, como disse o filósofo: "Eu penso 99 vezes e não descubro a verdade. Paro de pensar, mergulho em em profundo silêncio,e eis que a verdade me é revelada."
Sou tão intensa naquilo que acredito, tão impetuosa na busca da Verdade que acabei desconstruindo sonhos e criando pesadelos.
No final, a gente percebe que as nossas verdades são apenas umas verdades, e não a verdade.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Amado amor!

Onde estás? Em quais lugares andais que não te reconheço?
Meu coração de tão triste suga a vitalidade da minha cútis e enruga a pele.
Levanto o olhar quebrantado pelos anos e contemplo a estrada poerenta e íngreme, olho para trás com desejo de voltar e arrisco-me a dar alguns passos vacilantes.
Meu senso comum diz que estou a ponto de tomar meu próprio vômito. A margem que deixei nunca me foi atraente e essa onde estou agora também não.
Amado amor, nem lá nem cá te encontro. Nem mais acredito que existas. Não, não te idealizei, apenas te amo sem conhecer-te.
Minhas narinas soerguem-se como se pressintissem teu cheiro. Há uma falta crescente que mitiga meu olfato obcecado pelo desejo de te sentir. Parece que sei o teu cheiro.
Amado amor, sonho com teus braços carinhosos envoltos em meu corpo, vejo e revejo a beleza de teu sorriso único que transmite luz à minha solidão.
Perdoe-me, porque te confundi timidamente com um estranho. Fui infiel a ti por alguns anos. Perdoe-me, foi confusão de meu pobre coração atormentado, desconsolado.
Amado amor, por que demoras?