quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Paradoxo





E essas noites de insônias que me jogam às lembranças do que já sepultei. Essas noites traiçoeiras nas quais meu coração sem paz busca respostas. Meus olhos secos, sem nuvens, deixa meu viver mais arisco, já que não consigo expulsar a dor que se disfarçou de nada. Um vazio, um vácuo que gira feito um redemoinho provoca-me náuseas. Meu pensamento é como o vento, em nada se fixa e em tudo está. O coração quer gritar, mas minha boca o amordaça. Queria me revoltar, mas a sensatez me aprisiona. E se eu me tornasse louca apenas uma vez?

Dorme, alma gentil! dorme, coração neutralizado! Não busque tormentos e açoites, mas paz e tranquilidade. O que eu sinto é um paradoxo. Uma paz que perturba, uma perturbação que me petrifica. Nada sinto e tudo sinto. Nada e tudo indefinidos como eles são.

Suerbene Paulino

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O altar.com

        Ergueu seu altar há alguns anos. Seu mundo, sua fé, sua audácia resumiam-se as vezes que lá subia  e descia. Cada dia esperava um milagre, uma esmola, uma pequena doação, uma reação... Seu ídolo continuava lá, imóvel, passivo, sorriso nos lábios, corpo aprumado, olhos no vazio. Não demonstrava sentimento. Não tinha hálito, não tinha cheiro, não tinha suor, não tinha frio, não tinha ação.
         O coração dela  disparava não se sabia o porquê. Os olhos eram ora nostálgicos, ora felizes e nunca correspondiam  ao que ela  via no altar, pois seu ídolo sem cor era sempre o mesmo.
          Passaram-se os anos e o idolo já amarelado pedia para ser removido. O tempo e o vento arquitetaram um plano e, numa melancolica manhã de chuva, o vento, ajudado pelo tempo, arrancou a fotografia que ainda alimentava aquele altar. A chuva implacavelmente removeu os únicos vestígios ainda deixados pelo tempo. No altar, ficaram apenas o vazio e a moldura de um passado sabotado pela insistência desumana de manter cativo o que não se quer prender.
          A mulher não chorou, não reclamou, nada disse, nada fez. Continuou religiosamente sua caminhada para o altar todos os dias. Esse era o único modo que conhecia como forma de encontrar o que buscava.
        Um dia, alguém curioso questionou-lhe:
_ Por que o altar? Por que a insistência? Por que a rotina?
E a mulher, como se fosse sorrir pela primeira vez depois de tanto tempo, respondeu:

_ Foi aqui que o encontrei pela primeira vez.
_ É por isso que vem aqui  todos os dias?
_ Espero um milagre. Na verdade, venho em busca de meu coração que aqui ficou desde aquela primeira vez.
E mostrou seu peito com um grande buraco coberto de bandagens.



Suerbene Paulino

sábado, 27 de agosto de 2011

O rio e a lagoa

        Nascera por obra do acaso (de Deus) em um lugar remoto, quase ermo. Mantinha-se ativa pelas precipitações pluviais recorrentes naquele lugar, até que um dia as coisas mudaram. A lagoa estava morrendo afogada em seus sonhos e devaneios.
        Definhava-se aos poucos. As chuvas escassas castigavam-na mais do que a supria. A poeira do tempo trouxera-lhe sujeiras e seu brilho não era mais uma atração. Nunca, que se lembrara, havia negado água a ninguém. Animais, pessoas, plantas... a eles, generosamente servia.



        Um veio cristalino ainda teimava em alimentar-lhe, era a única prova de que ainda respirava. Rachaduras rodeavam-na e, no meio da morte, apenas um fio d'agua teimava em estar ali.
         Um dia, um gigante rio, contrariado pelo curso da vida, foi obrigado a estender um de seus braços por aquele lugar. A lagoa acordou mansamente, como quem desperta de uma lenta recuperação. Incredulidade e agonia tomavam conta dela. Havia aceitado pacientemente o dia de sua morte e agora era despertada pelo desejo de viver. O gigante estava indo embora, estava de passagem, mas a lagoa sedenta o absorveu e ele, aos poucos, inundou-a. Foi envolvendo-lhe, suprindo-lhe, despertando o desejo e a consciência de ser lagoa. O veio cristalino misturou-se às águas do gigante. Agora a água da lagoa parece ter uma milagrosa essência de cura, porque  aquela que era uma doente terminal, embora ainda elimine sujeiras de seus "poros" por causa  de seus longos dias de sequidão, demonstra vitalidade e sinal de que ainda vai viver muito com seu rio gigante que misturou-se às entranhas dela.


Suerbene Paulino

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Minhas marcas

         Trago marcas como qualquer ser humano. Algumas estão escondidas, ainda, sob escombros. Outras estão patentes e divididas. Chego à conclusão de que, sem elas, meu rosto não seria real, minha vida estaria vazia e meu presente sem oxigênio. O que move a engrenagem que faz a vida andar são essas marcas. O bem e o mal que nos fizeram, a vida e a morte que nos juraram, o amor e o ódio que nos devotaram, a ingratidão e a benção que nos deram são golpes certos,  marcadores do EU que nos domina.
         Ando ultimamente buscando uma companheira chamada CORAGEM, ela brigou com o MEDO e esse instalou-se aqui furtivamente. O DESTINO deu-me uma muleta para andar. Tenho agora três pernas, uma é emprestada. Quando conseguir meu fôlego de volta, devolverei esse step útil. Importante agora é continuar caminhando, ainda que com exaustão.
        Reporto-me ao sentido de viver e encontro mil razões para estar aqui. Amo a vida, amo o ar, amo-me definitivamente. Minhas marcas são a prova contundente de que não estou aqui por acaso. Fui marcada e marquei muitas vidas. Em algumas vidas, sei que deixei marcas que doeram, embora tenha buscado fazê-las de forma positiva. Que posso fazer, se o instinto de sobrevivência reage nas mais diversas horas?!
        VIVER é tudo de que mais preciso HOJE!

Suerbene Paulino


       


domingo, 21 de agosto de 2011

Secreto



Como todos os segredos, guardo secreto esse sonho entre alguns outros. Talvez esse seja um ponto firme de minha convicção ainda insana em levar adiante o que ficou para trás. Trago em minhas mãos o cheiro único. Raio de sol nevoado,  roubaram parte de mim e não me devolveram. Seria possível dissipar-me assim toda essa esperança?
_ Que esperança? Pergunta-me a vida!
Como uma ovelha, rumino dia após dia o que foi e não foi, o que é, mas não devia ser, o que poderia ser e talvez nunca será...
Que mundo feito de desencontros, meu Deus! Giro-me  e reviro-me, querendo me encontrar. Nem sei onde procuro meu eu, parte de mim extraída.

"Quando se está a beira de um precipício, dar um passo atrás é, na verdade, dar um passo a frente." AD