sexta-feira, 1 de julho de 2011

Faz frio!


    

      Faz frio, amor! E a solidão fez-se companheira arbitrária. Desfez a mala e fixou moradia. Por mais que faça, não consigo mandá-la embora. No começo, nossa convivência foi amena, pacífica e eu cheguei a gostar dela. Precisava desse momento a sós comigo. Mas aí o silêncio fez denúncias acerca do meu coração que estava apenas anestesiado. O barulho da chuva acordou-o e ele, desconsolado, irrompeu em lágrimas.
      Precisava do barulho de sua gargalhada, precisava bater descompassado tal quando percebia seu olhar intenso...
     Não tem graça esse silêncio! E, para piorar, faz frio, amor! Necessito da quentura do teu corpo, do roçar de teus lábios em meu pescoço, da oscilação de tua respiração.
     Estou encolhida em nosso ninho, disputando com a chuva quem molha mais meu rosto, se as lágrimas, se a água que recolho com a mão da janela de nosso quarto.
     Faz frio, amor! E esse fenômeno gela meu sangue. Estou travada. Sinto um queimor imenso oriundo do meu coração que lateja. Só ele que destoa do frio que percorre meu corpo, pois queima, ai como queima! Dói, agride-me! Amor, que fizeste comigo?

Suerbene Paulino, em 02/2011

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Falsa estrela

Queria aquela estrela para mim, Senhor! Mas não me destes. Há anos buscava o rastro dela de sul a sudeste, de norte a nordeste, de leste  a oeste. Vi-a encapuçada e nada me fez recuar,  pois vinha cega pelas agruras da vida. Como a desejei. Sorri e inventei caminhos que pudessem me transportar até ela, no entanto, criei labirintos infindos e "perdi-me dentro de mim".
Fadigada, retorno dessa mísera aventura e pergunto-te: _ Como e por quê, Senhor?
Minha estrela errante anda por aí, iluminando quintais e esquinas sordidas. Ahhh, eu  desejei colocá-la no alto de minha vida e exibi-la, mas...
Minha estrela tem vida própria, gases nefastos que infestaram meus pulmões e quase me mataram. Meus olhos ainda são duas nebulosas e vagam desgovernados em busca dela. Vigio-a, espreito-a. Loucura isso, eu sei, porque a cada momento meu coração é torturado pelos caminhos que ela teima em fazer.
Vejo-a mais distante, sofro por não conseguir mais ver sua imagem nem apreender a que existia dentro de mim. Quero dizer-lhe adeus, estrela, já que és errante! E errando portos e aportagens, entrastes e saístes de minha vida como um sonho e pesadelo.

Suerbene Paulino

sábado, 28 de maio de 2011

A menina e o Tempo

Havia uma menina que queria ser moça...
 Ela imaginava que poderia ser feliz, porque seu mundo infantil era por demais incompreendido.
Tantos adultos mandando e dizendo que fazer, como fazer, por que fazer...
Um dia o Deus dos tempos permitiu que ela crescesse e uma linda moça se tornasse...
Satisfeita, a moça começou a correr campinas e descer córregos, comer frutos proibidos e buscar essências antes escondidas. Percebeu que era gostoso ser moça, ser jovem, ser bonita e viver, mas, com essa possibilidade, vinha também a responsabilidade de ser um adulto e ter que dizer "
às meninas" o que elas deveriam fazer, como fazer, por que fazer...
A moça nem percebeu que, com aqueles sentimentos todos "pesando" em seu peito, tornara-se mulher...
E viu-se, algumas vezes, perdida, buscando aquela menina que queria ser moça e tentando ser a moça que não queria mais ser menina...
Marcou audiência com o Senhor do Tempo. Ele apareceu-lhe menino, olhos vivos, nada tinha de barba branca e longa, não era corcunda e nem tinha andar manso. A mulher ficou envergonhada.  Falar com aquele menino milenar? Que lhe diria?
Tentou voltar  timidamente pelo corredor austero do tempo e percebeu na porta uma tabuleta: "Sem voltas".
Ia sair, nada falaria na audiência, quando resolveu olhar o menino novamente...
Tudo ao seu redor estava mudado, enquanto pensava, o menino fazia peraltices, ele não parou um instante de mexer na sala onde estavam.
_Que estranho! falou finalmente a mulher.
_ O que? perguntou o menino.
_ A sensação que eu tinha era de que o tempo tinha cheiro de mofo, pedra com lodo, ferrugem...
_ Todos pensam assim, falou o menino peralta. Por isso que passo na vida de muitos e eles nem percebem. O mofo, o lodo, a ferrugem existem para mostrar que alguém parou no tempo e não que o tempo parou nele.
E, segurando a mão da mulher madura, disse-lhe, com voz de homem crescido: _ Siga adiante, não tem volta para essa estrada. Se tentar voltar, atrairá mofo para suas vestes, ferrugem para seu corpo e lodo para seu sorriso.

Suerbene Paulino



sexta-feira, 20 de maio de 2011

Se eu ...

Se eu não o amasse, sairia hoje por aí em busca de uma boca sedenta para beijar...
Se eu não o amasse, poderia sobrar tempo para amar-me, mas perdi-me dentro de mim mesma por causa dessa força insana que desestrutura-me.
Se eu não o amasse, talvez fosse ver o mar, as pessoas sorrindo e sentir o vento farfalhar meus cabelos.
Se eu não o amasse, viveria bailando, cantando, dançando, sorrindo...
Se eu não o amasse, talvez encontrasse o grande amor de minha vida... (?)

Mas eu o amo e  isso tira toda a minha esperança de viver.
Queria arrebentar meu peito e arrancar sem licença alguma o que machuca meu coração: você!

Quando eu deixar de te amar, vou correr, dançar e gritar... gargalhar!
Não quero você dentro de mim, importunando-me, ditando-me o que devo fazer, só porque amo você!

Quando eu deixar de amá-lo, vou amar-me mais e nunca mais, nunca mais mesmo, amarei alguém mais que a mim mesma...
Se eu não o amasse...

Suerbene Paulino

domingo, 1 de maio de 2011

Saudade




Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Leilão


Não sabia daquele leilão. Navegava madrugada adentro quando, de  repente, viu-se diante dele: um quadro lindo. Parecia que se comunicava com ela. Demorou a dar o lance, porque ainda analisava cada detalhe do cenário ali retratado. Linda colina que se envergava num horizonte contínuo. Um grande rio cortava a paisagem de flores e prados,  répteis selvagens completavam o cenário. Embora, para muitos admiradores, a presença deles  distorcesse aquela inusitada viagem que a arte podia proporcionar, para ela, demonstrava a realidade que toda  paisagem deveria ter .
Ao Sul, uma chácara cor de mel parecia encobrir-se pelos pinheiros altivos e retilíneos que se postavam uniformes, em fileiras tão perfeitas que pareciam alinhadas como um pelotão. Dava-se para ver o sol despontando sob a colina verde e a beleza do canto dos sabiás sibilava em notas musicais coloridas que o artista minuciosamente havia esculpido. Não deveriam estar ali, as notas musicais, mas estavam.
Percebeu um lindo canteiro de girassóis escondidos por entre as folhagens gigantes das palmeiras, pareciam sorrir?!
Encantou-se. Arrematou-o e foi dormir, feliz,  com o sorriso no canto dos lábios tímidos e temerosos por experimentar tamanha satisfação.
No outro dia, quis certificar-se de que não sonhara e voltou ao local do arremate. Tudo estava perfeito. Seu quadro. Compartilhou-o com alguém, com alguns e depois com todos. Não dava para disfarçar o olhar e a fisionomia que a denunciavam. Fora parabenizada e muitos pediram para vê-lo – o quadro.
Ajustou a data do recebimento. Queria estar em casa quando ele chegasse. Precisava ainda arrumá-la para que o lugar devido fosse desocupado, pintado e preparado. Afinal, aquele arremate não era obra do acaso. Havia algo maior que se configurava como uma promessa de anos.
Alguns atrasos ocorreram, mas conseguira, finalmente, recebê-lo, embalado. Abriu com cuidado cada parte que o escondia, porém protegia-o. Com o coração pulsando cada vez mais rápido, pôde enfim tocá-lo. Não havia se enganado em nada, ou melhor, havia. Ele era mais que ela esperava.
Enfim no lugar devido, centro de sua sala.
Um dia percebeu que algo se destoava da paisagem, uma serpente enroscava-se na raiz de uma linda figueira. Tinha ojeriza a cobras, ainda mais serpentes. Por que somente agora conseguia enxergar aquele “detalhe”?
Paciência.
Outro dia... Os girassóis, para seu desencanto, não estavam mais sorrindo.
Alguns meses... O rio estava mudando de cor. As águas cristalinas estavam ficando avermelhadas e... Que horror! Parou... Estagnada, observou que os prados estavam ficando alaranjados.
Passou a mão sobre a paisagem e viu que a tinta que o pintara escapava pouco a pouco formando uma paisagem confusa e distorcida.
Retirou-o do centro da sala e o pôs em um cantinho do seu quarto, escondido por entre as cortinas das janelas.
Ainda não acreditava que precisava jogá-lo fora.

Suerbene Paulino

Talvez


Talvez o espaço cedido em seu coração para a pousada do outro seja algo transitório, com data certa para chegar e ir embora.
Talvez esse desejo de manipular, de rir do outro, seja um estado pueril ou mal, guardado e aperfeiçoado por anos a fio.
Que se esconde em um coração tão obscuro assim?  O desejo egoísta de usar e descartar semelhantes? O direito de se achar juiz para julgar, condenar e executar sentenças àquelas que, desavisadamente, passam por sua vida, atraídas pelo magnetismo de uma personalidade idealizada, cuja aparência você desenhou e coletou de um mundo ficcional?
Observador, você imita aquilo que trará saldos positivos para seu percurso medonho. Mesmo ciente da existência de um Deus, que tudo vê, sua inconstância se corporifica e assume dimensões assustadoras.
Quem vai fazê-lo parar? Quem vai “brecá-lo”? Você parece uma máquina desgovernada ou um bicho que segue o instinto, e só!
Talvez eu esteja a desenhar-lhe o que você teima em não ver, teima em esconder ou que eu teimo em julgar...
São conjecturas para as quais não encontro respostas ou respaldo. Isso rodopia meu senso e investe nessa desordem que abomino.  Talvez a capacidade de desestruturar-me dessa forma venha de você e eu não suporto estar tão vulnerável a um ser que não se revela tão humano, ou pelo menos cristão como deveria.

Suerbene Paulino